terça-feira, 3 de julho de 2018

ERA O CÉU QUE ME FALTAVA | Autazes, AM

Nunca é fácil começar a falar sobre os lugares onde estive. A experiência, além de personalíssima, aflora sentimentos indescritíveis. A memória é produto de um esforço para recriar o que outrora se sentiu e viu. Esforço-me para escrever o que senti e vi no Juma, grande rio do Amazonas; de como me encantei pelo sabor do abacaxi orgânico plantado por uma família ribeirinha, de como me relacionei sem acesso a internet ou sem telefone celular. Sem dúvidas, não é uma atividade fácil o relato de uma experiência, mas prometo tentar.

Passados 7 dos 11 dias de minha viagem ao Amazonas, entrei em um van rumo às margens do rio Paraná do Mamori. Do porto de Manaus até a outra margem do rio Amazonas, foram quase duas horas até chegar em algum lugar em Autazes. Mais uma hora de barco até, finalmente, chegar na simples pousada em que passaria os próximos 3 dias. No quarto compartilhado estavam algumas moças que, guardando as roupas em suas bolsas, se preparavam para a última atividade antes de irem embora.


Eu, chegando, coloquei minha minúscula mochila no chão, troquei o chinelo pelo tênis e desci a imensa escada que separava os quartos do refeitório. No almoço, o guia local, Chitão, indígena lá das terras de Roraima, confirmou que iriamos para a floresta após a refeição.

Mochila nas costas, entrei na canoa em direção a imensidão do rio. As muitas ilhotas e as margens ao longo do Juma confundiam a minha cabeça, que pensava estar indo a lugar nenhum. Leigo, pensava ser os mesmos lugares. Mas não eram. Levei um tempo para entender como os ribeirinhos se achavam naquele lugar (e acabei por não entender mesmo).

Após uma hora e algo, paramos no acampamento. Havia chovido e, por isso, não iríamos para muito longe além da margem. Carregamos o que tínhamos para carregar, penduramos as redes — com os mosqueteiros — e logo fomos a pesca. Um tucunaré e uma paca pescados depois, voltamos para nossa casa por aquela noite. Fogueira acesa, a janta começou a ser preparada. Após o jantar, a luz já não mais iluminava a floresta. Restava-nos a escuridão e o sono em meio barulho constante de várias vidas pulsantes da Amazônia.

Logo que o sol surgiu, despertei e levantei da rede. Os companheiros e companheiras de floresta já estavam sentados ao redor da fogueira tomando o café preparado de uma maneira particularmente curiosa (eu não fazia ideia que água em temperatura ambiente despejada dentro do café dissolvido em água quente fazia a borra assentar e ficar bom para ingestão). Quatro biscoitos e muitos pedaços de abacaxi depois, desmontamos o acampamento, entramos na canoa e seguimos para a pousada. Dormir na floresta foi uma experiência divertida, mas igualmente indescritível. Os sons dos bichos não param, e logo você se entrega a melodia descontinuada e irregular. É um sinal que a vida está ali. 

Antes de chegarmos para o almoço no refeitório, no caminho, paramos na casa de Chitão. Construídas ao alto do barranco por conta da época da cheia, descobrimos uma verdadeira e pequena comunidade familiar as margens do Juma. Ali viviam homens, mulheres e crianças de uma mesma família; era como um pequeno sítio com várias casas, e cada um exercia uma função para subsistência daquela unidade familiar. Chegamos um pouco depois do processo de preparação da farinha de mandioca. As mulheres da família estavam na cozinha, na parte externa do sítio, preparando o almoço. Chitão nos mostrou o que eles plantavam no imóvel. De cacau à açaí, o que mais fez sucesso foi o abacaxi. Diferente de tudo que eu já havia comido, era um sabor doce e agradável que só o fruto da agricultura orgânica e familiar tem.

À tarde, um almoço e várias fatias do bendito abacaxi depois, fomos descansar e testar a paciência no meio do rio. Aos que se interessam por esse tipo de turismo, houve a oportunidade de pescar piranhas; a mim, restou-me ficar observando a vida ao redor enquanto me besuntava de repelente. À noite, depois de um pequeno descanso pós-janta, seguimos pelo céu da Amazônia; e que céu! As estrelas, incontáveis, enfeitavam a escuridão. Era como olhar algo mágico, incomparável. Minhas experiências de céu estrelado em Goiás foram interessantes, mas — não querendo comparar céus —, nada me fez crer que estar em algum lugar valia tanto a pena como o momento em que olhei aquela imensidão reluzente, às 21 horas e pouco, no meio de um rio na Floresta Amazônica.



Por fim, antes de voltar a Manaus para meus últimos dias de viagem, andamos um pouco pela manhã na floresta para conhecer algumas espécies medicinais. As cores — escuras por conta da chuva — os cheiros e os sons da mata me fizeram lembrar de onde eu estava. Tudo, absolutamente tudo se encaixa perfeitamente em um conjunto de energias e completude em que até as mais minúsculas formigas têm sua função sistêmica. No meio dessa grande bela obra de arte, era eu um intruso telespectador; doidinho para ficar e sentir mais.

Deixei o Juma com um muita vontade de voltar e uma malinha lotada de coisas boas. Dois barcos e duas vans depois, estava de volta no hostel; era hora de começar a me despedir do Norte.







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